A Hemodializada

Tenho medo de ficar doente! Say what?

Ontem tive uma conversa com uma amiga que me deixou deveras pensativa.

Ela dá aulas e está cansada da gestão de um dos colégios no qual trabalha, algo que já é recorrente. Então ela contava que o marido andava constantemente a insistir com ela para abrir um centro de explicações e que inclusive lhe dava apoio financeiro para isso.

Ela já tinha referido isto outras vezes e afirmado que tinha receio. Então, uma vez que ela já tinha empresa aberta ao prestar serviços a colégios dando aulas, assim como também dava explicações em casa, questionei-lhe qual era o problema? Porque não avançava?

Qual não é o meu espanto que responde: tenho medo de ficar doente!

É, what? Como disse?

Esta minha amiga também tem uma doença crónica rara e como qualquer pessoa que sofre de uma doença crónica sofre altos e baixos. Sofreu muito no início, pois uma vez que os médicos não a diagnosticavam acabou a passar um mau bocado. Depois do diagnóstico acabou por estabilizar com crises pelo meio. Mas agora leva a sua vida o mais normal possível dentro da sua realidade, com altos e baixos e acompanhada de algumas crises de dor.

E é aqui que eu não percebi o seu receio. Eu percebo que tenha medo de arriscar porque tem medo que o negócio não vingue, que acabe por se colocar numa despesa que não dê lucro, percebo que tenha medo de não ter clientes, etc, etc. Mas medo de ficar doente?

Isso numa pessoa com uma doença crónica é viver constantemente aterrada, é deixar de fazer tudo porque amanhã ou depois pode ter uma recaída. É viver constantemente à espera que caía! É um pesadelo!

Eu já aqui disse que não me considero uma pessoa doente, apenas alguém com limitações. E para mim temos todos de viver com as nossas limitações, uns mais que outros. Assim sendo, não há nada no mundo que faça com que eu não continue a viver a minha vida na normalidade e me detenha de correr atrás dos meus sonhos.

Talvez por vezes tenhamos de colocar um freio aos desejos, sonhos, esperanças. Talvez de vez em quando seja necessário uma adaptação! Talvez haja necessidade de colocar algo em stand by… mas desistir não! Nunca!

É assim que vejo a vida! É assim que adaptei a minha insuficiência renal à minha vida. Sim, porque depois de chorar muito, revoltar-me e deixar-me levar pela escuridão, percebi que não havia forma de fugir. Eu teria de adaptar-me! Mas adaptei a doença a mim e não o contrário! Ambas tínhamos de viver em simultâneo!

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